BRASIL, Florianópolis, SC – Praia dos Ingleses.


Para quem chega à Praia dos Ingleses pelo Centrinho do bairro, não há como não se deslumbrar com aquela imensidão azul cercada pelo abraço do Morro da Feiticeira (separa Ingleses da Praia Brava) ao norte e da Ponta dos Ingleses (separa Ingleses da Praia do Santinho) ao sul. Entretanto, ao caminhar à direita de quem chega, em direção à Ponta dos Ingleses, se prestar atenção você poderá se perguntar: valerá à pena um banho de mar?

A Praia dos Ingleses dista em aproximadamente 40 km do Aeroporto Hercílio Luz em direção ao norte da ilha.
Por ser de mar aberto figura entre as praias mais procuradas nas altas temporadas, ao contrário das praias do sul, de mar calmo, frequentadas por famílias com crianças e idosos.

UMA VOLTA NO PASSADO

Meu pai era natural de Florianópolis e lembro-me, perfeitamente, da primeira viagem que fizemos no primeiro carro que meu pai adquirira na vida – se é que assim poderíamos chamar aquele Ford 1935 de freios nada confiáveis, no qual trafegamos por 3 dias no percurso Rio-Florianópolis.
Quando me lembro de nossa partida naquela madrugada de 1956 – e como me lembro! – ainda me emociono. Eu estava com 10 anos de idade (estou com 70 anos) e meu irmão com 6. Meu pai, criatura movida à aventuras em família, boa vontade, excelente humor e otimismo, jamais! poderia imaginar que surpresas aquela máquina que chamava de carro ia aprontar. Mas…, chegamos sãos e salvos à hoje conhecida Ilha da Magia, a saudosa Florianópolis de 56!
Não havia bairro que se pudesse chamar de chic e as praias do norte da ilha eram de difícil acesso para quem dependia de condução.
Não havia Jurerê “Internacional”. Jurerê naquela época ficava no meio do mato; via-se uma casa aqui e outra acolá e era só. Para ser mais franca, certa vez quase chegava à praia quando uma cobra verde saiu do mato e atravessou minha frente. Nem preciso dizer que nesse dia “não deu praia”.

Ônibus para Jurerê, Canasvieiras, Santinho e Ponta das Canas, dentre outras localidades, passava com horário marcado e o intervalo entre um e outro era uma vida: no mínimo, duas horas. Mas como a vida passava em câmara lenta e mais rápido que isso só os automóveis dos ricos, ninguém reclamava.

Certa vez, eu e mais quatro primas fomos ao Santinho em um fusca 1500 de propriedade de nossa prima Anécia.  Essa aventura foi pelos idos de 74…, 75…. Fomos até lá para tomarmos banho de mar e ser apresentada a “duas praias desertas que eram um paraíso”. E eram! Santinho e Ingleses eram celestiais. Aliás, todas as praias da ilha de Santa Catarina  encanta(va)m de alguma forma. Pelo menos a mim.

As estradas eram de chão e ao chegarmos às praias, praticamente intocadas, tínhamos a sensação de sermos os primeiros a marcar nossos pés em suas areias finas e brancas. Que delícia! Ninguém faz idéia do privilégio que foi viver naquela Florianópolis.

As paisagens desérticas que descortinávamos tão distante do Centro de Florianópolis eram verdadeiras conquistas e ao retornarmos à casa e contarmos nossa aventura, logo alguém perguntava com cara de espanto e olho arregalado  – Vocês conseguiram ir até lá??? – Ói, ói,ó! Mash que loucos!

O costão (com letra minúscula mesmo) do Santinho servia de pasto e foi lá que decidimos estender nossas toalhas para pegar Sol. Tanta praia ao nosso redor, mas a moçada cismou em subir o morro e deitar na grama. A praia vista do costão, naquela época, era uma imagem da qual não me esqueço: dia lindo…, sol pleno e sem névoa, e o Santinho só para nós. Pelo buraco da fechadura de minha memória vejo aquele dia no Passado como um comercial de não sei quê, mas de pessoas muito felizes. Foi um dia de colorido forte e nítido. Um dia em 3D!

Em dado momento descemos o costão em desabalada carreira ao percebermos um boi e algumas cabras vindo em nossa direção. Nunca mais fomos ao Santinho e passamos a tomar banho de mar na praia que ficava nos fundos do então sítio da tia de meu pai, na hoje poluidíssima praia do bairro João Paulo. Uma pena!…

DEMOROU, MAS CHEGOU

Quanto a Ingleses do Rio Vermelho… Bem, quem morava no longínquo Ingleses nunca poderia imaginar que o bairro fosse crescer a ponto de se tornar auto suficiente. No comércio você encontra restaurantes, boutiques, sorveterias, supermercados, hotéis, pousadas, salões de beleza, Bancos, shopping, Cafés, cartório, clínicas médicas, consultórios dentários, academias, colégio, delegacia, hortifrútis, um parque aquático e até um cartódromo.  Ingleses conta com mais de 25 mil habitantes residentes, e na temporada de verão a população aumenta consideravelmente. Casarões e prédios modernos foram construídos, e o resultado do discutível progresso temos presenciado no dia-a-dia tal qual ocorre em todas as cidades que evoluem sem limites.

Aquelas aventuras vividas nas praias da antiga ilha (onde forçosamente acabávamos fazendo pique-niques porque não havia onde comprar nada!) foram morrendo. A capital avançou em direção ao mar para que se construísse a Avenida Beira Mar; o asfalto forrou ruas e estradas; Hercílio Luz ganhou duas vizinhas que já não dão conta do recado; casas foram demolidas em terrenos onde brotaram altos prédios, e de etcétera em etcétera Florianópolis passou a constar em rotas de turismo… e aos poucos foi preparando e cedendo espaços para acolher os visitantes temporários vindos de diversas partes do nosso e de outros continentes. Nesse pacote, Ingleses encheu-se de graça, mas…
Na praia, lixeiras espalhadas abundantemente ao longo da areia contrastam com as manilhas que despejam toda sorte de lixo na areia e cujo destino é o mar.  No trecho Centrinho/Ponta dos Ingleses a agressão ao meio ambiente e a frequentadores da praia, em 2011, era de entristecer e revoltar – nada diferente do que tenho visto na orla do Rio, São Paulo, Espírito Santo, Bahia, Ceará…

 

Apesar da proibição, donos de cachorros se deixam acompanhar por seus animais de estimação em suas caminhadas pela beira-mar; automóveis mal estacionados interrompem a passagem de pedestres e os obrigam a passar pelo asfalto – revoltante inversão de valores. O melhor lugar para estacionar o veículo compromete ética, bons costumes e respeito aos transeuntes, mas rende alguns trocados para os manobristas e é isso que interessa.

Pegas de automóveis com direito a cavalos-de-pau, algazarraras até de madrugada, motores de moto roncando alto, níveis absurdos de sons vindo de carros de “bacanas” em seu sentido mais amplo,  tudo isso e mais alguma coisa é o preço que o antigo morador paga pelo usuário de tecnologias de ponta que não se dá limites.

Para quem conheceu a pacata Florianópolis que mais parecia um presépio ligado ao continente pela Ponte Hercílio Luz  (ou melhor: ligado ao que restou do principal cartão postal da cidade), hoje se assusta.
A Florianópolis da Sorveteria Satélite que vendia um sorvete cremoso de butiá digno de ser ofertado a Zeus!; da Padaria Foguinho na esquina da Hercílio Luz com a Travessa Jornalista Oswaldo Melo; da fa-mo-sa empada do Chiquinho; do Senadinho; dos bailes de Carnaval no 12 de Agosto da João Pinto; do Hotel La Porta…, do Boi de Mamão dançando na porta da casa de minha avó, deixou marcas em nossa memória. Ah! E quase ia me esquecendo: das serestas…
Minha prima Jane, que me auxilia nas buscas e reaviva minha memória, lembrou-se da bala Rocôco, da A Soberana. Segundo ela, a danada era uma delícia: crocante por dentro e revestida por uma camada de chocolate. A outra era a Uva do Norte, tão gostosa quanto, que também desnorteava os paladares mais exigentes.
E por falar em paladar, minha prima Jane lembrou-se também da Sorveteria Cocota na rua Bocaiúva, quase em frente ao Hospital de São Silvestre. Segundo ela, o sorvete era dos deuses.
Saudade das vezes que atravessei o cartão postal “Ponte Hercílio Luz” para visitar entes queridos no continente ou pra voltar pra casa, para outro cartão postal chamado “Princesinha do Mar“.

Ambos, em preto e branco.

NOTA: Todas as fotos são de propriedade da autora do blog e foram clicadas na Praia dos Ingleses.

ROSA CRISTAL comenta.

 

 

4 opiniões sobre “BRASIL, Florianópolis, SC – Praia dos Ingleses.”

    1. Rosa, para quem conheceu as praias da ilha de Santa Catarina praticamente intocadas, dói demais ver este cenário. Aliás, se sairmos fotografando o litoral brasileiro, todas as praias próximas às capitais deixam a desejar em limpeza. É como você diz: o ser (dito) humano é o único de defeca na água que bebe.
      Bjks e obrigada por seu comentário.

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  1. Seu texto foi poético, amiga, desenhando a trajetória de uma Florianópolis que vai do paraíso ao caos e que para mim figura como a história do desconhecido. Não conheço Floripa, pasme! Lamentável saber que locais tão bonitos como a Praia dos Ingleses tenham sido atropelados pelos que chamam “progresso”, que na verdade é um engodo utilizado por especuladores que pretendem fazer desse cenário mais um balcão de seus negócios.

    Parabéns!

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    1. Olá, Rodrigo!
      Florianópolis ainda conta com praias maravilhosas e ainda não agredidas pelo “progresso” como você mesmo diz. Felizmente. As mais procuradas na temporada é que acabaram se tornando agredidas por este ser vivo e incompreensível conhecido por humano. E não se trata apenas do litoral catarinense. Observe em suas andanças que onde há “gente” há lixo- um assunto que ainda é problema para muitos países. Infelizmente.
      Obrigada por seu comentário, sempre bem-vindo.
      Abraços da amiga Marilia.

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