Portugal, Lisboa – Cervejaria Trindade, desde 1294!


Foto em Destaque: Painel de um dos salões da cervejaria. Neste, os quatro elementos e as quatro estações do ano estão representados em pinturas em azulejos. Autoria de Luís Ferreira.

HISTÓRIA com H.
Considerada Patrimônio Cultural da Cidade em 1986, e Patrimônio de Relevante Valor Histórico-Cultural pela Direção Geral de Turismo, em 1997, uma visita ao que restou do antigo Convento da Santíssima Trindade, fundado em 1294, vale à pena, principalmente se você estiver a par de sua História, pautada por muitos sofrimentos, “compensados”, se é que podemos dizer assim – a partir de 1840.


Pelos sucessivos episódios catastróficos que abalaram o convento, tudo indica de que o ergueram em um terreno onde não havia apenas uma, mas várias “cabeças de burro” enterradas ali.
Agora, preste atenção! Só a partir do momento em que pensaram em aproveitar o mesmo lugar para construir uma cervejaria, foi que a coisa começou a mudar de figura e a sorte despertou e começou a mostrar seu sorriso. Dê uma olhada no texto ali embaixo e veja se tenho ou não razão.


Voltando à vaca fria: os salões são grandes e vivem lotados. O cardápio bem humorado sugere porções que me pareceram muito apetitosas para quem deseja comer alguma coisa só para tapear o estômago. Para os mais bem dispostos a trabalhar com as ferramentas – era como meu pai se referia aos talheres – , há sugestões fantásticas de pratos mais elaborados. Destaque para as propostas de pescados e frutos do mar – meus prediletos. Meus deuses!

Um queijo inteiro nos foi servido junto com manteiga. Achamos por bem não abrí-los – seria demais.
Miolo de sapateira (caranguejo) servido no próprio casco foi nossa opção para abrir os trabalhos.

Encontramos uma casa com quase todas as mesas ocupadas. Lembremo-nos de que se trata de um lugar turístico, e apesar disso o atendimento foi rápido, simpático e bem cortês.
A açorda que me foi servida não agradou muito no paladar apesar da excelente aparência. Faltou alguma coisa.

O bacalhau de meu fiel escudeiro estava morno, as batatas idem…

A sobremesa era de sabor suave e agradou.
Um púlpito do antigo convento sobreviveu às catástrofes. E para quem acredita que objetos têm memória, essa peça tem muita História pra contar.
Questão de respeito aos frequentadores e visitantes.

REFERÊNCIAS
A construção foi destinada a um convento, o da Santíssima Trindade, administrado por 3 freis – os Frades Trinos da Redenção dos Cativos, título recebido em função do trabalho de resgate de prisioneiros dos mouros.
Este prédio conta muitas histórias desde a inauguração do convento, em 1294, até nossos dias.
Foi reformado em 1325. Em 1498 abrigou a Santa Casa de Misericória. 

Em uma sexta-feira santa de 1542, uma das capelas do Convento da Trindade serviu de cenário para o encontro do poeta Luiz de Camões com Dª Catarina de Ataíde. A paixão foi imediata, mas conta a literatura que o romance foi impossível. Mesmo assim, Camões cantou sua grande paixão em alguns de seus poemas.


DESGRAÇA POUCA é BOBAGEM
Porém, os episódios mais tristes e memoráveis aconteceram em 1708, quando o convento foi destruído por um incêndio de grandes proporções.
Como se não bastasse, em 1º de novembro de 1755, Dia de Todos os Santos, um terremoto de proporções gigantescas seguido por tsunami e incêndios destruiu, praticamente, toda a cidade de Lisboa e o sul de Portugal.
Este sismo foi sentido no Marrocos; atingiu muitas cidades, dentre elas Meknès, Rabat e Fez, além de ter afetado a costa dos Estados Unidos e a Europa.
O Museu do Carmo em Lisboa são uma amostra das dimensões do terremoto.
Quando estive em Rabat na década de 90, o guia nos informou de que aquela que fora planejada para ser a maior mesquita do mundo, a Mesquita Hassam, havia sido um dos alvos do terremoto de 1755.
Entretanto, não é o que conta a Enciclopédia Wikipédia. Saiba mais clicando aqui.

Em 1766, logo após ter sido reconstruído da tragédia de 1755, o convento foi atingido novamente por outro incêndio. Desta vez escaparam a igreja, a biblioteca e o refeitório.

Em 1834 o convento perdeu parte de seu edifício para favorecer o plano de urbanização da cidade de Lisboa. Foi nesta época que o industrial Manoel Moreira Garcia começou a fazer seu ninho: deu início à instalação de uma fábrica de cerveja neste local, apesar da precariedade do lugar.

INÍCIO DA INDÚSTRIA CERVEJEIRA
Em 1836, o industrial montou a Fábrica de Cerveja da Trindade em dois lotes arrendados neste mesmo terreno, e ainda aproveitou paredes que sobraram da demolição do convento.
Como não era bobo nem nada, decorou as paredes externas do prédio com os mesmos azulejos que foram poupados das paredes demolidas do convento.

Em 1840 o industrial começou a vender cerveja diretamente ao público, em um balcão instalado no que restara do refeitório dos frades Trinos. Esperto!…

A APARÊNCIA ATUAL
das paredes deve-se ao trabalho do pintor de azulejos Luís Ferreira, que decorou-os com motivos maçônicos.

Como o ambiente começou a crescer, o novo salão foi decorado com azulejos pintados que evocam as quatro estações do ano e os quatro elementos.

Tetos e arcos foram decorados com motivos heráldicos, executados por outro artista de nome Vale.

De 1876 a 1920, Domingos – o filho de Manuel -, e seus herdeiros assumem a direção da cervejaria.

De 1920 a 1932, por falecimento de Domingos Garcia, funcionários da fábrica e da cervejaria constituem uma sociedade apoiados pelo capitalista José Rovisco Pais.
Como seus bens foram legados à instituições beneficentes, com sua morte, em 1932, a Fábrica da Trindade foi colocada em hasta pública e, em 1934, Fábrica e Cervejaria passam a um consórcio cervejeiro. Em 1935 encerra sua atividade, mas, outra vez, a exploração da Cervejaria é transferida para a Sociedade Central de Cervejas, da qual a Fabrica de Cervejas Portugália fazia parte.

De 1946 a 1948 começaram as ampliações na Cervejaria Trindade: um salão foi aberto no espaço que era ocupado pela igreja do convento e onde, posteriormente, funcionaou a fábrica de cerveja.

Na figura da esquerda, Hermes Trismegisto representado como um ser mitológico muito comportado. Prá início de conversa, está vestido! Ah, Hermes!… Quem o vê no Orsay…

Neste salão estão as referências às quatro estações do ano e aos quatro elementos.

Mais tarde, na galeria do antigo claustro¹, foi construído outro salão.Para este anexo as paredes foram decoradas com painéis modernos em mosaicos de pedra, de autoria da artista Maria Keil. Sua intensão foi remeter às calçadas de Lisboa – conseguiu seu objetivo.
Foi neste salão mais moderno (abaixo) que conseguimos lugar.

Decoração em azulejos cuja beleza dispensa comentários.

De 1959 a 1972 uma parte foi destinada ao funcionamento de um restaurante de nome Folclore. Em 1974, fechado este restaurante, os ambientes foram novamente interligados, restaurando-se a mesma planta baixa de 1940.

Em 1986 a Cervejaria Trindade foi integrada ao Patrimônio Cultural da Cidade, ano de comemoração de 150 anos de atividade.
Em 1987 recebeu outra condecoração, desta vez pelos serviços prestados ao turismo português.
Em 1997 foi reconhecida pela Direção Geral de Turismo, com sede em Lisboa, como Patrimônio de Relevante Valor Histórico-Cultural. E não poderia ser diferente.

De 1998 em diante passou por conservação dos azulejos, redecoração de ambientes, reformulação do cardápio, da imagem da marca, divulgação etc.

Em 2007 voltou à propriedade do Grupo Portugália.

Interessante ressaltar que em 15 de fevereiro de 1854, a Fabrica de Cerveja da Trindade recebeu de Sua Majestade, D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, um alvará “fazendo mercê a Manuel Moreira Garcia de tomar por fornecedor de Cerveja de Sua Real Caza…”
Esse título permitia ao industrial colocar “As Armas Reais no frontispício de seu estabelecimento – a Fábrica de Cerveja da Trindade.”
É aquela velha estória: “Quem não tem competência, não se estabelece”.

Saiba muito mais a respeito da cervejaria clicando aqui.

1- Definição Wikipédia: "Um claustro é uma parte da arquitetura religiosa de mosteiros, conventos, catedrais e abadias. Consiste tipicamente em quatro corredores a formar um quadrilátero, por norma com um jardim no meio. Vida de claustro ou de clausura é a designação comum dada para a vida dos monges, frades ou freiras."